sábado, 12 de maio de 2012

Há tanta pouca realidade numa vida...

Morri tantas vezes antes de morrer - morri sempre que o amor parava, e o amor estava sempre a parar dentro de mim. Parava e crescia, comia tudo o que eu sabia. Eu imaginava frases novas como barragens contra essas vagas que me levavam. Mas as barragens caíam, eu voltava morta à praia, renascia a tremer de frio, na noite marítima. Então contraía de novo a minha barragem, agarrava-me aos meus mortos passados, presentes e futuros, envelhecia e renascia, engelhada e sôfrega. Falava. Falava incansavelmente do que sabia e do que desconhecia, esperava que me mandasse calar para ouvir apenas o vento das palavras definidas dançando como um louco descabelado nesse opaco interior do meu corpo...... Onde está agora o amigo imaginário da minha infância solitária? Morava-me no fígado, nos pulmões, no estômago e no sangue. Sempre que me sentia mal pedia-lhe que consertasse os fusíveis, que me limpasse as entranhas esburacadas, e ele obedecia. O caos era temporário, porque esse amigo imaginário, conferindo realidade à minha vida. Há tanta pouco realidade numa vida - bocados desgarrados de história, pedras voando pelo ar, chocando-se na estratosfera, curto-circuitando os nossos propósito. Amava esse curto-circuito, provocava-o. Para que a perfeição pudesse atingir-se com um só jato de riso.

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